Dom Casmurro
Quotes from the Book
The whole street took part in the serenade to Flor, Flor leaning against her high window, all ruffles and lace, drenched in moonlight. Down below Vadinho, her gallant knight, with the red rose in his hand, so red it was almost black, the rose of her love.
Exu eats anything in the way of food, but he drinks only one thing: straight rum. At the crossroads Exu waits sitting upon the night to take the most difficult road, the narrowest, the most winding, the bad road, it is generally held, for all Exu wants is to frolic, to make mischief. Exu, the great mischief-maker, Vadinho's patron deity.
He took her as though she were a toy, a toy or a closed rosebud which he brought into bloom each night of pleasure. [She] began to lose her timidity, giving herself over to that lascivious union, growing in response, turning into a heartsome, spirited lover.
...a person's value does not rest on outward appearances, but on his true merits, what he really is.
No seu caso não se tratava apenas de uma frase feita — “partiu desta para melhor” —, de um lugar-comum; e, sim, da expressão da verdade. Fosse o que fosse a esperá-lo nos mistérios do além — paraíso de luz, de música e anjos luminosos; tenebroso inferno com caldeirões a ferver; o úmido limbo; as peregrinações pelos círculos siderais; ou o nada, o não-ser apenas — qualquer coisa seria melhor se comparada à vida em comum com dona Rozilda.
Concluiu de nada adiantar sua sacrificada labuta, aproveitou uns dias de inverno mais úmido para adquirir uma pneumonia barata — “nem sequer uma pneumonia dupla”, ironizou dr. Carlos Passos — e emigrou para o astral. Silenciosamente, numa tosse discreta e tímida. Fosse outro e poderia ter escapado, ter vencido a doença, pouco mais do que uma gripe. Gil, porém, estava cansado, tão cansado!, não se dispunha a esperar doença séria e grave. Além do mais, não tinha ilusões: doença de qualidade, importante, moléstia da moda, cara, falada nos jornais, não chegaria para ele, o melhor era mesmo contentar-se com sua mesquinha pneumonia. Assim o fez e, sem se despedir, faltou com o corpo, descansou.
Sim, só havia uma solução, única e certa: Vadinho retornar para donde viera, só assim estariam garantidas a honestidade da esposa e a testa do droguista.
— Feio! Onde já se viu homem feio ou bonito? A beleza do homem, desgraçada, não está na cara, está é no caráter, na sua posição social, em suas posses. Onde já se viu homem rico ser feio?
Surgiram-lhe um começo de calvície, idéias conservadoras, hábitos monarcos e a ambição de terras e bovinos: como se vê, homem completamente recuperado para a sociedade, a família e o latifúndio.
Happiness is pretty boring, hard to take - in a word, a pain in the neck.
Contava agora tão-somente com um mundo de lembranças, nele recolhida, refugiada em recordações, cinzas com que apagar a brasa do desejo vivo.
— Não sei ficar em casa quando a chuva lava a cara do dia e ele reluz novo em folha, todo faceiro…
Sem ele não sabe viver, não pode viver. como acostumar-se, se outra é a luz do dia envolto em cinza, num crepúsculo metálico onde vivos e mortos se confundem nas mesmas lembranças. Tantas imagens e figuras em derredor de Vadinho, tanto riso e tanto choro, um bulício, um calor, o tilintar das fichas e a voz do crupiê. Só no fundo da memória a vida se afirma, plena, com a luz da manhã e as estrelas noturnas; afirma-se vitoriosa sobre esse crepúsculo em coma, no estertor da morte.
Insone no leito de ferro, no abandono e na ausência, dona Flor parte na rota do acontecido, portos de bonança, mar de tempestades. Reúne momentos esparsos, nomes, palavras, o som de uma breve melodia, refaz o calendário. Deseja romper a cintura de aço desse crepúsculo, mais além estão o dia de trabalho e a noite de descanso, a vida de viver. Não esse viver num tempo gris de nojo, não esse vegetar num asfixiante pântano de lama, essa sua vida sem Vadinho. Como sair desse óvulo de morte, como atravessar a porta estreita desse tempo nu? Sem ele não sabe viver…
No meio da aula, quando riam as moças, de súbito dona Flor como que se ausentava, os olhos perdidos, a face ansiosa. Quem gosta de carregar defunto dos outros, dias e dias às voltas com o morto, como se não existissem cemitérios?
— Minha cara, enxaqueca de viúva é falta de homem na hora de dormir. Tem remédio fácil, compra-se com o casamento… — Casamento? Deus me livre e guarde… — Também não é obrigatório… Pode tomar o remédio sem casar, o que não falta por aí é homem, minha cara — e ria tagarela.
No segundo casamento só não houve namoro, e com razão, pois não fica bem a uma viúva namorar, numa esquina ou no esconso de uma porta em deboche e agarramentos: beijinhos, abracinhos, pega aqui, pega acolá, mão nos peitos, correndo pelas coxas. Descarações e sem-vergonhices toleráveis em namoro de donzela se são sérias as intenções do namorado, dando-lhe direito a alguns avanços; mas insuportáveis e desmoralizantes em se tratando de viúva.
Por fora, o recato em pessoa. Calma de semblante e retirada, parecendo a própria mansidão; por dentro, ardendo de desejo, “em fogo consumida”, como Oxum, seu orixá. Ah!, Dionísia, se soubesses como o fogo de Oxum queima as noites de tua comadre e seu corpo moreno, seu pelado ventre, lhe mandarias dar um banho de folhas ou um marido.
Finalmente ia transpor o duro tempo, a negra noite, o deserto de luto e solidão: outra vez em cavalgada partiria a vadiar.
Se meu leito é triste cama de dormir, apenas, sem outra serventia, que importa? Tudo no mundo tem compensações. Nada melhor do que viver tranqüila, sem sonhos, sem desejos, sem se consumir em labaredas com o ventre aceso em fogo. Vida melhor não pode haver que a de viúva séria e recatada, vida pacata, liberta da ambição e do desejo. Mas, e se não for meu leito cama de dormir e, sim, deserto a atravessar, escaldante areia do desejo sem porta de saída?
O desejo nascia dela, de seu peito, do silêncio, do devaneio, da solidão, do sonho. Sem motivo, sem ponto de partida, sem semente nem raiz. Nascendo dela — “de minha ruindade mesmo, Norminha” —, de seu corpo em febre, crescendo naquela carne estrumada de ausência, de penúrias, de maldições; ânsia plantada no esterco de sua danação:
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About Jorge Amado
Book details
- Author
- Jorge Amado
- Genre
- Classics
- Goodreads rating
- 4.03 (10k ratings) →
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